Obcecado pelo fim: homem viaja 2 mil km para matar ex-namorada no Paraná
A história de Thainara Cavalcante e Natan de Souza Brito terminou da forma mais cruel possível — e, justamente por isso, causa um desconforto ainda maior: ela não é um caso isolado. O feminicídio cometido em Terra Roxa, no Oeste do Paraná, repete um roteiro que o Brasil conhece bem demais. Um relacionamento marcado por anos de convivência, o fim não aceito pelo agressor, perseguição silenciosa, obsessão, monitoramento e, por fim, violência extrema.
Segundo a Polícia Civil, Natan, de 28 anos, viajou quase 2 mil quilômetros de Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, até o Paraná, com um único objetivo: matar a ex-companheira. Ele permaneceu 17 dias na cidade planejando o crime, acompanhando a rotina de Thainara e aguardando o momento de agir.
O assassinato aconteceu na madrugada de 14 de maio. De acordo com a investigação, o suspeito pulou o muro da residência, entrou usando uma cópia da chave e atacou Thainara com cerca de 20 facadas no pescoço. Ela morreu no local.
Em depoimento, Natan confessou o crime e afirmou que decidiu viajar após descobrir, pelas redes sociais, que Thainara estava em um novo relacionamento. O casal havia terminado havia cerca de cinco meses, mas, segundo a polícia, ele não aceitava o fim da relação.
Depois do feminicídio, o homem foi até a cidade de Toledo, tomou banho na casa de familiares, trocou de roupa e, somente depois, procurou uma delegacia para se entregar. Ele permanece preso por feminicídio.
Enquanto a investigação reconstrói os passos do criminoso, a família tenta preservar a memória de quem Thainara realmente era. Aos 28 anos, ela sonhava em construir uma vida tranquila: queria ter filhos, comprar a casa própria e continuar conquistando sua independência. Trabalhava desde muito jovem e comemorava cada conquista com entusiasmo — da carteira de motorista à compra da moto.
Segundo a irmã, Thainara era conhecida pelo sorriso constante e pela determinação. Ela e Natan ficaram juntos por cerca de oito anos e construíram sonhos em comum, interrompidos de forma brutal.
Mas a pergunta que fica vai além deste caso: por que histórias assim continuam tão frequentes?
O feminicídio raramente acontece “de repente”. Em muitos casos, há sinais anteriores: controle excessivo, ciúme obsessivo, perseguição, ameaças, invasão de privacidade, dificuldade em aceitar o término e comportamentos possessivos. Ainda assim, muitas vítimas convivem com o medo em silêncio ou não conseguem apoio suficiente para romper o ciclo de violência.
Especialistas apontam que combater esse tipo de crime exige mais do que punição. É necessário fortalecer redes de proteção, ampliar o acolhimento às mulheres ameaçadas, acelerar medidas protetivas e, principalmente, mudar uma cultura que ainda confunde posse com amor.
Também é fundamental que familiares, amigos e vizinhos levem sinais de perseguição e obsessão a sério. Muitas tragédias poderiam ser evitadas se ameaças após o fim de relacionamentos fossem tratadas como risco real — e não como “drama de casal”.
A morte de Thainara não é apenas uma estatística. É o retrato doloroso de sonhos interrompidos e de uma violência que insiste em se repetir no país. E talvez a pergunta mais urgente não seja apenas “o que aconteceu?”, mas “o que ainda falta para impedir que aconteça de novo?”.
Por Cleomar Diesel fonte G1 PR




