Trem regional no litoral Norte de SC: a grande sacada que pode mudar a mobilidade catarinense
Enquanto Santa Catarina continua discutindo duplicações intermináveis de rodovias, congestionamentos crônicos e acidentes em corredores saturados, uma proposta começa finalmente a apontar para o futuro: a implantação de um trem regional de passageiros aproveitando a já existente ferrovia EF-485, no Norte catarinense.
O plano defendido por associações de municípios da região parte de algo muito mais inteligente: usar uma estrutura ferroviária que já existe, já opera para cargas e já conecta algumas das cidades mais industrializadas e populosas do Estado.
A EF-485 já liga Mafra ao Porto de São Francisco do Sul, passando por polos estratégicos como Rio Negrinho, São Bento do Sul, Corupá, Jaraguá do Sul, Guaramirim, Joinville e Araquari. São cerca de 170 quilômetros que atravessam uma das regiões economicamente mais fortes de Santa Catarina.
Hoje, o corredor é utilizado principalmente para cargas industriais e transporte ligado ao porto. Mas o que prefeitos, entidades regionais e lideranças empresariais começam a enxergar é algo maior: transformar esse eixo em um sistema moderno de mobilidade regional para passageiros.
E faz todo sentido.
O Norte catarinense vive um colapso silencioso de mobilidade. A BR-280 e trechos da BR-101 já operam próximos do limite em vários horários. Milhares de trabalhadores fazem deslocamentos diários entre cidades vizinhas, enfrentando trânsito pesado, custos elevados com combustível e perda de produtividade.
Joinville, por exemplo, praticamente se tornou um polo central de empregos para moradores de Jaraguá do Sul, Araquari, Guaramirim e São Bento do Sul. O mesmo acontece com o eixo portuário de São Francisco do Sul. O crescimento urbano acelerado da região já não combina mais com um modelo baseado exclusivamente em carros e caminhões.
É justamente aí que o trem aparece não apenas como transporte, mas como estratégia de desenvolvimento.
A experiência internacional mostra que regiões industriais fortes costumam investir em trilhos quando atingem determinado nível de saturação viária. O trem reduz pressão nas rodovias, melhora a integração econômica, valoriza cidades médias e ainda cria uma alternativa ambientalmente mais sustentável.
Outro ponto importante é que o projeto não nasce isolado politicamente. A articulação reúne Amunesc, Amplanorte, Amvali e o Consórcio Intermunicipal de Mobilidade Urbana, além do apoio buscado junto ao Ministério dos Transportes e à ANTT. Isso demonstra que a região entendeu algo fundamental: sem união regional, grandes projetos nunca saem do papel.
A reunião marcada com a Agência Nacional de Transportes Terrestres no dia 10 de junho pode ser um primeiro passo decisivo para colocar Santa Catarina no mapa nacional dos projetos ferroviários de passageiros.
Claro que ainda existem desafios enormes.
Será necessário adaptar trechos para convivência entre carga e passageiros, modernizar estações, garantir segurança operacional e construir um modelo economicamente sustentável. Também será preciso vencer a tradicional lentidão brasileira quando o assunto é infraestrutura ferroviária.
Mas o mais importante talvez já tenha acontecido: alguém finalmente percebeu que o futuro da mobilidade catarinense não pode depender apenas de mais asfalto.
A grande sacada desse projeto é justamente entender que a solução pode estar nos trilhos que já cortam o Estado há décadas — e que, até agora, eram vistos apenas como corredores de carga.
Se houver visão de longo prazo, o trem regional do Norte catarinense pode deixar de ser apenas um sonho nostálgico e se transformar em um dos projetos de mobilidade mais inteligentes do Sul do Brasil.
Por Cleomar Diesel fonte ND Mais




